Todo mundo tem vergonha de si

18:30

Foto: Flickr
"Sexta feira a noite e saio atrasada forçada de casa porque minha amiga pediu para eu esperar. Passo batom no metrô e todos no vagão me olham estranho e realmente não sei porquê.
Seguro o espelho para uma desconhecida passar delineador nos olhos.
Encontro minhas amigas e fazemos mil baldeações até chegar na estação da rua mais cheia de baladas e bares de São Paulo.
Tem muita gente que meus tios dizem que são "esquisitas", mas eu adoro todas elas principalmente a moça do cabelo azul que está descendo com a meia furada e um cigarro na mão.
Tem muita gente na fila e eu queria tomar sorvete, mas não vou falar isso porque minhas amigas vão me matar se eu sair daqui só pra tomar sorvete. Tenho que fazer cadastro pra entrar na balada. Até pra isso a gente tem que se cadastrar, cada uma viu.
Finalmente chega nossa vez. R$10 open bar. Aqui tem cheiro de vodca muito forte.
Devia ter vindo sem bolsa, tinha só minha carteira e o celular agora vou ter que carregar até o fim porque me recuso a pagar pra guardar porque é o mesmo preço da balada, ou de um lanche depois ou de duas passagens de ônibus mais balinhas.
Todo mundo por aqui dança um passo para a esquerda outro para a direita, mas ninguém move as mãos e acho isso estranho. Parece aquele tipo de dança quando você tá com vergonha que te vejam dançando, mas aqui não precisa ter isso porque estamos no meio da Augusta: o lugar dos esquisitos.
Sem passo da galinha por aqui porque eu seria a estranha do rolê definitivamente. Não move as pernas, não agache, nem mova as mãos e os braços. Porra os braços!
Ótimo! Agora tem cerveja no meu cabelo porque eu esqueci de dançar com os braços parados.
Quero fazer xixi, quero muito fazer xixi. O banheiro não deve ser tão ruim assim, né? Errado. Me recuso a colocar minha preciosa nesse buraco negro. Vou transpirar até a vontade passar.
Estou transpirando e já nem penso mais no xixi, mas o cabelo... 
Meu cabelo está começando a armar, mas eu esqueci de trazer um elástico, claro. E também odeio minhas orelhas a mostra. 
Dane-se as orelhas! O ar condicionado não funciona e se eu não prender o meu cabelo com o meu cabelo teremos uma Jimmy Neutron versão real oficial.
Depeche Mode! Isso!
Alguém bate no meu braço. Ah não! Nessa música não! Murmuro "eu namoro" e continuo dançando. All I ever wanted, all I ever needed. Cutucão. Porra! Um braço estendido para mim e fico olhando sem entender. É me chamando pra dançar? Dou um "toca aí" na mão do cara e continuo dançando. Words are very unnecessary. Cutucão e braço na minha frente de novo. Um puta tapa na mão dele com um puta soquinho. O maior "toca aí" que ele já viu na vida.
Tem uns caras tentando beijar minha amiga e puxam conversa fiada. Faço a minha famosa cara de Larissa - inclusive saí com essa mesma cara na foto em grupo - e encaro os caras com antipatia.
Como tem gente chata!
Ninguém vai dançar de verdade? Ninguém fica animado por aqui? Toca as mesmas músicas do Lollapalooza mas definitivamente ninguém dança por aqui como dançam lá. Ficam parados para parecerem bonitos e fico pensando que mamãe saía para dançar nos anos 80 e que ninguém ficava só tentando ser bonito, aposto. Vou perguntar pra ela quando eu chegar.
Tento dançar olhando pra minhas amigas e acho que elas estão pensando que faço caretas pra elas, mas é só porque a luz pisca mais do que minha árvore de Natal e estou ficando tonta.
Para de piscar, merda!
Branco, azul, verde e vermelho. Meu cérebro está falhando.
O DJ resolve que é uma ótima ideia ele cantar I'll Be There For You como se ele fosse o verdadeiro Bon Jovi exceto pela voz, beleza, idade e bem, pelo Bon Jovi mesmo.
Mas está divertido.
Bate cabeça com Killing in the Name e tem cerveja até no meu suvaco. Agora eu realmente quero um banho.
"Vamos?" as meninas perguntam e eu fico feliz porque estou rouca porque eu não podia dançar como danço no meu quarto sendo bem esquisita, mas podia cantar alto que ninguém ia me escutar mesmo.
Quero fazer xixi, mas espero até chegar em casa.
Vou falando daqui até em casa para não dormir no carro do pai da minha amiga.
Chego em casa e faço xixi por quatro Larissas de uma vez só. Mamãe já está de pé fazendo café.
"Como vocês dançavam nos anos 80?" pergunto enquanto ela me espera tomar banho. 
"Do mesmo jeito que danço com você na sala, ué".
"Tipo quando toca INXS?"
"É, às vezes era pior."
"Ah". Eu tinha razão. Hoje todo mundo tem vergonha de ser estranho mesmo que estranho seja parte de quem eles são.
Todo mundo tem vergonha de si, infelizmente.
Devia ter feito o passo da galinha..."

Texto por Larissa Honorato.

You Might Also Like

0 comentários

Sobre

Larissa Honorato
Apaixonada por música, moda, fotografia e comportamentos sociais. Procuro instigar o questionamento e a curiosidade das pessoas para que sempre se descubram e reconstruam.