Por que o mercado não expõe os "diferentes"?

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A corredora queniana Jacqueline Kiplimo perde U$10 mil na corrida em Tawain (2010) por ter chegado em segundo lugar após ajudar um corredor chinês a beber água. Fotógrafo não encontrado.
Sabe aquele bordão "para o mundo que eu quero descer"? Pois então acho que não sou a única a pensar e falar ele com uma frequência absurda.
Não é de hoje que as grandes marcas têm dificuldade de aceitar que mundo é formado por pessoas diferentes e que isso é maravilhoso. Na cabeça de alguns publicitários e pessoas da moda infelizmente ainda existe um padrão a ser cumprido: branco, hétero, cis e magro definido.
Já é absurdo suficiente querer representar uma nação completamente misturada cheia de descendentes de negros, europeus, asiáticos, etc com um único modelo, pior ainda é querer representar como se esse grupo entendesse o sofrimento dos outros grupos.
Veja bem, se você é homem-hétero-branco-cis-magro você sabe que é privilegiado de todas as maneiras possíveis, se você é tudo isso mas é gordinho você também é privilegiado, se você é tudo isso mas é homo você é menos, mas ainda assim é privilegiado. Assim como as mulheres-brancas-héteros-cis que, por mais que sofram com o machismo, são muito mais privilegiadas do que uma mulher-homo-trans-negra-pobre-gorda por exemplo.
Nada disso é mimimi. Quando eu digo que você nunca sentirá o sofrimento e a dor do outro é a mais pura verdade porque você não sofre aquilo na pele todo santo dia. Homem nenhum jamais vai saber o pavor que nós mulheres temos todo dia ao sairmos de casa com uma saia que amamos. Nenhum branco jamais vai entender a revolta que é entrar num lugar onde as pessoas escondem os pertences pessoais de você. Nenhuma pessoa não-deficiente vai saber como dói ter gente olhando estranho por não ter um braço.
O que podemos fazer é compreender e aceitar que a dor do outro é do outro e precisamos dar voz a ele. O homem que não sente o pavor da mulher pode ouvir e compreender e ajudar dando toda a voz possível para aquele grupo. O mesmo vale para negros, o mesmo vale para deficientes, o mesmo vale para gordos.
Não somos todos iguais e estamos muito longe disso. Para sermos um pouco iguais, antes de tudo precisamos reconhecer nossos privilégios em relação aos outros grupos, precisamos escutar os outros grupos e precisamos apoiar.
Não devemos NUNCA nos incluir como parte do pacote porque nós não somos parte do pacote, nós não sofremos o que o pacote sofre. Então o que a gente faz? Dá toda a voz e apoio possível para que eles falem por eles.
Sabe aquela história de que você tem uma boca e duas orelhas por um motivo? Não há verdade mais pura.
Não digo para você não falar nada, mas peço que ouça e aí sim fale e, quando se vir diante de uma situação onde aquele grupo que você ouviu desabafando tanto está sendo humilhado de alguma forma, fale tudo o que o grupo te falou e explique para quem humilha.
O mercado nada mais é do que um reflexo do que a sociedade vive e se eles acham que usar não-deficientes numa campanha de deficientes é chamativo - mesmo que de uma forma negativa porque mesmo assim vai vender e chamar atenção - está na hora de todo mundo rever os seus conceitos.
Se queremos ver os "diferentes" sendo representados então nós, enquanto consumidores precisamos fazer barulho. É dando dislike sim, é comentando sim, é fazendo textão sim, é postando foto polêmica sim e se as marcas reclamarem, a gente faz mais, muito mais.

Texto por Larissa Honorato.
Com amor,
Querida Asquini.

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Sobre

Larissa Honorato
Apaixonada por música, moda, fotografia e comportamentos sociais. Procuro instigar o questionamento e a curiosidade das pessoas para que sempre se descubram e reconstruam.