O texto não é sobre ela

11:40

Carol N. M:
Foto:  Pinterest

Hoje quando abri o Facebook tinha mais de dez amigos compartilhando esse mesmo texto e fui ler. Num ato de impulsividade compartilhei também, mas depois de ler esse texto aqui e ver a publicação de outra colega blogueira optei por apagar e caí no choro.
Chorei porque é fácil se encantar pela narrativa de um homem que entende que a culpa não é da vítima, que vivenciou um momento mágico de libertação de uma mulher vítima de violência sexual. É fácil romantizar esse momento e deve ter sido realmente incrível para ele ter desconstruído um preconceito.
Não julgo o moço em questão por ter escrito o texto porque eu também me sinto muito bem quando desconstruo meus padrões, mas me incomodou várias coisas ali.
A primeira delas foi a imagem que acompanha tantas publicações que circulam nas redes. A segunda foi o que a Reyes já falou no texto dela: a moça em questão provavelmente nem sabe que ele "tomou a liberdade" de escrever uma narrativa completamente dela. A terceira foram os tais arrepios.
Provavelmente você nunca ouviu um relato de uma mulher vítima de estupro pessoalmente e nunca ouvirá principalmente se você é homem.
Não me entenda mal, mas homem nenhum jamais saberá o medo que sentimos em nos vestir de determinado jeito, de ter dado um beijo e recebido uma mão abusiva em troca, de ter sido invadida, violada e desrespeitada e depois ter ficado no próprio mundo, tirado a própria vida ou ter falado sobre e ser considerada culpada.
Ao ver a mulher se contorcer em arrepios, ao olhar na cara dela e perceber algo estranho não deduza que é melhor não perguntar nada. Que você acha melhor assim. Pergunte e, se ela não tiver bloqueios em falar sobre o que aconteceu, pergunte o que ela quer, se ela quer continuar e peça para que você possa ajudá-la a seguir em frente - se você estiver disposto; se não, pare tudo o que está fazendo e vá embora porque você só vai piorar.
Se ela tiver bloqueio em falar - muitas, muitas mesmo, talvez a maioria não fale sobre e tem milhões de bloqueios que você nunca irá entender porque cada uma tem um trauma diferente - pare e pergunte se ela quer continuar. Respeite.
Falo isso porque é comum preocupar-se apenas com o seu prazer - e não falo isso porque todos os homens só pensam neles na hora de gozar, não generalizo dessa forma - e é complicado deixá-lo de lado para libertar e satisfazer somente ao outro.
E o texto é sobre isso. É sobre como ele ficou feliz de não ter deixado a moça lá, de ter continuado e ter visto ela sentir prazer mesmo depois de um trauma que nunca a deixará. É sobre como ele se sentiu, como ele ficou feliz, como ele é um cara legal, sensível e bacana. É sobre querer chocar com a última frase e com o texto em si. É sobre o romantismo de um homem sendo gentil.
Não é sobre como é transar com uma mulher vítima de estupro, não é sobre como respeitar o tempo de cada vítima - porque ele não respeitou ou teria perguntado no primeiro arrepio estranho -, não é sobre ela e como ela se sentiu. Não tem nada a ver com ela.
Nós paramos para ler o texto romântico de um homem e sua experiência "lidando com estupro de outra mulher", mas leriamos o relato na visão da mulher? Sobre como ela sentiu nojo, raiva, medo, pavor, sobre como todas as lembranças queimaram vivas na mente dela enquanto ele a tocava? Leríamos um texto sobre ela?
Porque é sobre isso a desconstrução, é sobre isso o relato, a dor e a libertação. Não é lindo, romântico e digno de um filme. É doloroso, angustiante e dá raiva, medo, tudo menos felicidade.
Porque o único pensamento que eu tenho é que não é lindo ver uma mulher se libertar desse trauma pelo simples fato de que ela não tinha que ter trauma nenhum e é aí que mora o problema. Nunca é sobre ela.

Texto por Larissa Honorato.
Querida Asquini.

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2 comentários

  1. Olá, vi teu comentário no blog da Kelly (o Caligrafando-te) e resolvi fazer uma visita, gostei muito afinal, do seu cantinho.
    Gostei do seu texto. A primeira mão, compartilhei também o texto. Depois, observei várias mulheres feministas indignadas com a comoção coletiva e odiando tal escrita. Apaguei. Pensei bastante e sei que não concordo com elas. Vi muitos comentários de mulheres que foram estupradas e contaram como aquilo as fez sentir melhor, as fez enxergar nelas coisas que não sabiam (eu salvei alguns prints de comentários, se quiser ver qualquer hora). Vi também o texto da moça que foi estuprada e não gostou. E nesse texto li comentários de outras mulheres que também passaram pelo mesmo e discordam dela. Nada é 100%. Ninguém vai agradar todo mundo e cada pessoa reage às situações de forma diferente. Sim, não devia haver trauma algum. Nenhuma de nós deveria passar por isso, mas existe. E penso que, quando uma dessas mulheres decidem ter o ato sexual, não é fácil. Algumas confessaram que quando contaram aos homens que foram estupradas, eles foram embora. É preciso paciência e compreensão, e o rapaz teve. Ele não a violou, ele esperou o tempo dela. Ademais, ele não citou seu nome, então não vejo porque devia pedir autorização a ela para escrever sobre algo que aconteceu com ele. Não é diferente de mim por exemplo que escrevo sobre desilusões amorosas e muita gente que passa pela minha vida, às vezes falo bem, às vezes mal. Não é diferente de quem escreve canções sobre outras pessoas;
    Acredito que há muitas mulheres que vetam qualquer possibilidade de admirar algo que venha de um homem. Sim, eu sou feminista, mas não concordo com isso.
    E sobre seu blog, gostei demais, ganhou uma nova seguidora <3
    Desculpe o comentário gigante.
    Ah, e se te interessar, eu também escrevi um texto sobre isso (e mais umas coisinhas), bem aqui s2

    Mil beijos, com carinho, Beca;

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    Respostas
    1. Primeiramente fora Temer (hehe), segundamente muito obrigada por comentar aqui. Eu gosto de ter diversos pontos de vista sobre o mesmo assunto. Eu escrevi esse texto porque eu vi duas mulheres que eu amo muito e que foram violentadas falando sobre e como elas se sentiam doloridas com as palavras do moço, como esse arrepio incomodou na hora de ler. Li também várias meninas falando sobre como elas se sentiram acolhidas. Realmente nada é 100% e com certeza ele não ia conseguir agradar todo mundo e eu fiquei feliz de ver o moço se desconstruindo porque como eu disse no texto - e nós sabemos bem - é delicioso se libertar de preconceitos. Eu li teu texto e simplesmente adorei e concordei muito com o que disse. Adicionei aqui na minha listinha de blogs favs ♥ Beijos, Laris.

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Sobre

Larissa Honorato
Apaixonada por música, moda, fotografia e comportamentos sociais. Procuro instigar o questionamento e a curiosidade das pessoas para que sempre se descubram e reconstruam.