Porque enquanto eles se tocam...

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Numa mesa de bar repleta de homens e mulheres de cerca de vinte anos, os garotos nos contam suas experiências - um tanto quanto bizarras - com masturbação. Os buracos em que o dito cujo foi enfiado, cremes que não deviam estar ali, depilações frustradas e a lista de furadas - literalmente - é tão grande que eu e as meninas ficamos com falta de ar de tanto rir. É tão natural...
Daí no meio do assunto chega o tal do filme pornô. Polêmico filme pornô. As meninas rolam os olhos e soltam uma risada abafada.

"Vocês gostam daquilo mesmo? Tipo como vocês fazem? Ou vocês nem fazem?". A pergunta brota como feijão no algodão da boca de um rapaz e imediatamente encaro todas as meninas. Todas estão com a mesma reação: as bochechas travadas, uma vontade de rir e abaixar a cabeça ao mesmo tempo, uma vontade imensa de realmente contar como funciona, mas uma vergonha - involuntária - sem tamanho.
Uma delas até descontraí e conta muito por cima que as meninas não são como nos filmes pornôs e que detestam quando os caras reproduzem - ou tentam - com elas. Diz também que é questão de um ensinar o outro na hora, mas é isso e o assunto morre ali. Nenhuma delas responde. Nem eu que sou tão feminista e a favor da libertação do corpo feminino consegui falar. Algo de errado não está certo.
Claro, não iria rolar um tutorial falado sobre masturbação feminina - apesar de muitos caras precisarem de descrição detalhada -, mas ninguém se pronunciou da forma solta e descontraída dos meninos. Não foi natural. E isso acontece numa roda só de meninas também, são raras as vezes em que alguma garota se pronuncia sobre o assunto com tranquilidade.
Painel maravilhoso feito por alunos - que não sei quem são - no corredor de entrada da minha faculdade (FMU Vila Mariana).
Desde muito pequenas somos ensinadas a não gostar de determinadas coisas e uma delas é nosso corpo. Nosso próprio corpo, só nosso. Somos constantemente colocadas umas contra outras, influenciadas a nos odiar por nossos corpos e não usufruir deles para sentir prazer. Sozinhas, só nós, nos conhecendo. Mulher que se masturba é puta, não vale nada e, se fala sobre isso abertamente sobre, é nojenta, mal educada...
É por essa vergonha involuntária que nós nos masturbamos menos que os meninos, não porque não sentimos tanta vontade, mas sim porque achamos - também involuntariamente - que é um guilty pleasure (prazer criminoso, culpado; algo que não deveríamos gostar, mas gostamos). Por isso que deixamos pra lá mexer nos seios, na barriga, nas coxas, na vagina.
Eu li diversas publicações sobre Outubro Rosa e como as meninas deviam se tocar mais e todas elas com um cunho muito politicamente correto sobre apenas apalpar os seios como um exame. Honestamente, pra mim não é assim que funciona. Você só vai apalpar os seus seios se tiver vontade de fazer isso e sentir prazer de fazer isso com você com uma certa frequência como tudo na vida: se você gosta, você repete.
Você só vai perceber se tem algo errado porque mexe neles constantemente e num desses momentos de descoberta sentiu algo que não devia estar ali.
Porque o outubro pode ser rosa e conscientizar, mas você precisa fazer isso todos dias, semanas e meses. Você precisa se conhecer e o mês, na minha opinião, serve pra te lembrar disso. Não pra ser um robozinho que põe a mão no seio de uma forma mecânica.
Porque enquanto eles se tocam a gente sente culpa e não faz o mesmo. Enquanto eles gozam nós ficamos com medo de mexer nos seios e ser tarde demais.

P.S.: fica aqui meu recado a todas as mulheres sobre o Outubro Rosa, para mais informações sobre o câncer de mama clique aqui. E ah, depois de ler esse texto, você já sabe o que fazer ;) #peganopeitinho.


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Sobre

Larissa Honorato
Apaixonada por música, moda, fotografia e comportamentos sociais. Procuro instigar o questionamento e a curiosidade das pessoas para que sempre se descubram e reconstruam.