O que temos pra hoje é saudade

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Foto: Pinterest
Palavra bonita e sem tradução para outras línguas. Sau-da-de. É mais do que simplesmente sentir falta e que, quando criança, vivia perguntando a mamãe o que significava.
Certa vez ela me disse chorando que era algo doído demais e que esperava que eu nunca sentisse aquilo - tudo isso enquanto abraçava e beijava meu porta retrato que tem a foto dela com o vovô no seu aniversário de dezoito anos.
Achei estranho porque ela sorria enquanto chorava, amava enquanto doía e abraçava o ar de uma forma tão grotesca que parecia que vovô se materializaria ali diante de nós.
De certa forma eu a entendia porque eu sentia falta do vovô mesmo sem nunca ter o conhecido. Sentia a tal da saudade.
Cresci e com o tempo minha colega de sala mudou-se para outra cidade e eu sentia saudades da risada rouca e das canetas coloridas dela nas aulas de história.
No fim do ensino fundamental foi quando a conheci de verdade. Ela veio de todas as formas e cores e doeu e dói todos os dias quando me lembro do meu companheiro peludo de infância que me implorava pão de queijo, lambia-me a cara e me amava mesmo quando eu acordava de mau humor. Boa e ruim, tudo assim bem doido mesmo.
No mesmo ano minha melhor amiga mudou de país. No ano seguinte parei de falar com alguém da minha família e nesse mesmo ano minha avó se foi.
Se tem uma coisa que eu descobri sobre essa tal saudade é que ela vem do nada e sem nenhum aviso de gatilho: um toque, um cheiro, um sabor, uma música, uma foto, um sotaque. Ela não sinaliza se será do tipo dolorosa que te impede de sair da cama e dói até para respirar ou se será aquela que te deixa tão inspirado a ponto de escrever uma linda carta, ou se será as duas ao mesmo tempo - nesse caso te desejo sorte.
Porque ela pode ser chuva passageira ou tempestade duradoura, cafuné ou um soco no estômago e você nunca sabe realmente porque uma hora ela está ali quietinha te fazendo bem e outra hora ela vem com tudo - mas em qualquer uma das duas ela está ali para te dizer que tudo aquilo foi real.
A saudade que sinto dos que se foram "de vez" é algo indescritível e acho que é diferente para cada pessoa. Minha vida é divida em duas: o antes e depois. Constantemente me pego imaginando o que achariam dos meus amigos e namorado e como seria a vida de todos depois de conhecê-los. Adotei um método extra de julgamento me baseando nos que se foram: "será que vovó iria gostar?".
A saudade que sinto dos que estão aqui, mas não permanecem comigo é boa porque sou realmente grata por ter sido como foi. Eu cresci com a saudade e não sinto que é foi maligna comigo.
Saudade do que não conhecer, do que conheceu e se foi e do que conheceu e mudou. Ela sempre está aqui.
Nesse momento escrevo tudo isso porque é aniversário da vovó e não terei bolo e um dedo do meio gordinho erguido pra mim porque a chamo de velha. Isso dói. Isso é bom. É insuficiente, mas basta porque um dia ela foi e esteve e é por isso que a saudade existe - e é por isso que eu permito que ela fique mesmo que só por um instante.

Larissa Honorato.

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Sobre

Larissa Honorato
Apaixonada por música, moda, fotografia e comportamentos sociais. Procuro instigar o questionamento e a curiosidade das pessoas para que sempre se descubram e reconstruam.