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Larissa Honorato

querida leitora, 

já faz algum tempinho que eu sinto a necessidade de simplesmente sentar e escrever, quase vomitar as palavras que surgem na minha cabeça sem muito filtro, mas é bem difícil fazer isso querendo editar tudo mil vezes. prometo tentar.

esses dias conversando com um amigo ouvi a seguinte frase "acho que nunca ouvi você falando muito sobre si mesma" e, de fato, eu sou uma excelente ouvinte, não sou nada tímida, mas sou bastante introspectiva. mesmo. e sinto que isso agravou - não diria piorar, porque não é algo necessariamente ruim - depois de uma situação de trauma. e, estranhamente, essa foi a primeira coisa que me senti confortável para falar sobre mim: eu estou em inércia.

veja bem, eu não tenho ideia se tem alguma explicação científica-psicológica-emocional para o que eu estou sentindo, mas acredito que algumas pessoas, principalmente depois do caos pandêmico que vivemos, estão com um sentimento (ou vários deles) que é bem difícil de explicar.

tenho sede de viver, como nunca tive antes, saio para lugares que nunca fui, faço novas amizades, como comidas gostosas, viajo com meus amigos, estou tendo sucesso no meu trabalho, contudo, em diversos momentos, eu me sinto meio aérea, meio apática, meio neutra. não é tristeza, não é melancolia. também não é como se eu nunca ficasse feliz ou emocionada, porque eu fico sim, mas é uma felicidade diferente do que eu já senti. eu não quero soar triste, porque de verdade não estou, eu diria que estou mais neutra do que nunca com meus sentimentos.

às vezes tenho a sensação que é como se eu estivesse, aos poucos, ficando feliz por estar viva depois de ter passado por uma situação traumática. o jeito que eu encontrei de chamar essa neutralidade é inércia. escolhi batizar assim. fazendo algumas analogias: é como se eu estivesse tentando reagir depois de um tapa na cara forte na frente de todo mundo. ou como se eu tivesse batido o carro num poste bem de frente e arregaçado o veículo inteiro, mas percebido que saí - quase - ilesa. aquele tempinho antes de reagir.

é inércia porque eu genuinamente acredito - ou espero - que a intensidade voltará. não como antes, mas é uma sensação que me permeia. e tem sido difícil falar sobre isso com alguém porque, no geral, todo mundo tenta polarizar as emoções - veja só, eu acabei de fazer isso escrevendo - e eu já estive em estado depressivo antes, é uma apatia diferente, é realmente uma neutralidade, uma inércia. meus amigos e meus familiares se preocupam - com razão - mas não é como se eu estivesse triste, melancólica ou nunca experimentasse felicidade genuína, mas esses picos de emoção não estão acontecendo com a frequência que eu estava acostumada, eu acho e é algo bem esquisito de vivenciar porque eu sou um bocado chorona e emotiva. ou era, não sei.

caso você esteja se questionando sobre qual situação traumática eu me refiro, bem, acho que a pandemia como um todo, já que todos nós perdemos muito em dois anos, mas no caso, eu quase perdi meu pai para o motivo principal do isolamento social e só consigo dizer que, às vezes, eu também tenho a sensação de desconfiança de que eu consegui passar por tudo isso, mas ao mesmo tempo não sei a que custo emocional. por isso tanta terapia.

inclusive, graças às inúmeras sessões de análise eu não sinto culpa por estar neutra. também não sinto culpa por não querer a validação de ninguém sobre o que eu estou sentindo porque, honestamente, o sentir é algo tão particular que ter qualquer juiz classificando se é certo ou errado, bom ou ruim, atrapalha o que é para ser feito: sentir. não quero a opinião de ninguém sobre esse assunto, para ser sincera. é só um desabafo, uma carta para ser lida, um ouvido para escutar.

escrevo porque sinto que, de alguma forma, isso também chegará em outras pessoas que estão sentindo a mesma coisa e também estão neutras. encontrei na escrita minha forma de me abraçar e aceitar esse momento. espero que esse texto te encontre bem e te abrace também.

com amor,

querida asquini.

abril 26, 2022 No comentários

[...] Onde eu poderia arranjar uma caixa maior e mais resistente?

E foi naquele exato momento, encarando a caixa e tentando encontrar uma solução para resolver aquele problema, que alguém soprou ao meu ouvido um questionamento, bastante bobo e óbvio, que ecoou repetidas vezes: você deseja consertar a caixa?

Fotografia de um livro de fotografia feita por uma não fotógrafa (é, eu mesma)

Eu fiquei obcecada por essa pergunta. Passei dias e dias tentando encontrar uma resposta com justificativas perfeitas que fossem agradáveis para quem me perguntou. Refutei e briguei internamente, mandei calar a boca quem gritava um estrondoso e sonoro não.

Veja, é bastante bobo quando te perguntam se você quer ou não um chocolate - porque, duh, basta você querer ou não. Literalmente. Mas em algum momento, comecei a tentar sempre adivinhar o que deixaria quem-quer-que-estivesse-me-oferecendo-o-que-quer-que-fosse, satisfeito e feliz com a minha resposta. Pouco importa se eu gosto ou não de chocolate, mas se eu disser que sim, ele vai ficar mais feliz e ou se eu disser que não, ele vai se deliciar sozinho.

Dai tudo bem, a interpretação medonha de ser alguma super-heroína com poderes de premeditar e ler a mente de absolutamente todo mundo que me cercava foi legal por um tempo. Também não vou mentir que me rendeu uns espaços sociais aí, mas como dizem na internet: eu não sustentei a personagem.

Pense você no porre que é viajar com alguém que anda com um roteiro cheio de post-its e horários. Daí no meio do caminho, você encontra uma sorveteria incrível que tem o melhor cheiro do mundo e, quando vocês estão quase entrando, a pessoa te puxa pelo braço e aponta para o roteiro: a sorveteria não está ali nas anotações. E não é como se ela também não estivesse lambendo os lábios e imaginando que gosto teria o sorvete dali, mas o roteiro perfeito não planejou aquilo.

É, basicamente esse porre de pessoa fui eu por vários meses - muito provavelmente, anos - e quando eu derrubei a caixa - tá, sejamos sinceros: quando me empurraram e fizeram com que eu derrubasse - e dessa vez eu não tratei de remendar rápido - porque também vamos admitir que essa não foi a primeira vez que deu uma arranhada né?

Dessa vez eu aceitei que dava muito trabalho arrumar, eu sabia que tinha como consertar, mas observando com cuidado eu percebi que eu não estava afim. Eu não desejava. Aquele personagem que todo mundo gostava pela incrível capacidade de agradar (ou pelo menos tentar) era chato.

Em 2017 eu também tinha dado uma boa arranhada na caixa, mas fingi que não era lá grandes coisas e tratei de consertar rapidinho. Achei essa foto no meu Instagram.

Eu não quero que ninguém derrube a sua caixa porque vou te dizer, é horroroso, dói, pesa e é estranho sentir que não precisa carregar. Mas, posso te contar uma coisa? Dá até um pouco de vergonha de admitir, mas extraordinário mesmo é entrar na sorveteria pelo menos um pouquinho, só pra saber como é que é.

Espero compartilhar meus sabores favoritos com você.

Beijos,

Querida Asquini.

fevereiro 22, 2021 No comentários
Olá, quanto tempo faz desde que nos falamos pela última vez, não é mesmo?

Posso dizer que do lado de cá que senti falta de me sentar em frente ao computador e pensar na melhor forma de redigir o turbilhão de coisas que passam na minha cabeça, mas devo confessar que esse tempo ausente se fez extremamente necessário para eu conseguir enxergar algumas coisas - que certamente não vão caber nesse primeiro texto.

Sol bonito em cama de blogueira rica // Pinterest

Desde muito novinha eu gostava de aprender sobre muitas coisas - entusiasta de biológicas, amante de humanas e uma curiosa, porém frustrada pelas exatas. Também sempre fui apaixonada por artes, me arrisquei no teatro, dedilhei no violão e soltei a garganta por aí.

Confesso que ainda não sei exatamente porquê (talvez com bastante influência do capitalismo), mas quando se é adulto, parece que você não pode simplesmente ser curioso por algo, você precisa ser bom naquilo e, por consequência, aquilo precisa te elevar de alguma forma. Em algum momento muito específico, o que antes era só uma vontade de aprender, vira um símbolo de obsessão por excelência.

Como assim você não quer ser a melhor aluna da turma? Como ousas não competir para ser a melhor dançarina? A mais flexível? A mais expressiva? A mais talentosa? Como ousas querer ser mediana?
Sabe a prima da sua prima que não tem absolutamente nada a ver com você? Pois então, ela entrou na melhor companhia de dança quando tinha a sua idade, sabe?

Daí, com os comentários, comparações e tempo certo, cria-se pessoas obcecadas por sucesso. Basta ter um pouquinho de paciência e pronto, ela vai se questionar até se o ovo frito dela é o melhor que você já comeu - porque tudo, absolutamente tudo precisa ser o melhor. Extraordinário.

Por muito tempo, eu me sentia completa e boa o suficiente ao saber que todos a minha volta me achavam muito eficaz - tipo um robozinho, sabe? Check em tudo que as pessoas almejam, uma personificação do que vemos no Instagram - e não pense você que eu consegui romper completamente com esse ciclo, mas eu o percebi.

Deu certo colocar todas as minhas caixinhas dentro dessa caixona: energia, tempo, espiritualidade, sonhos, etc. Consegui fazer caber tudo lá dentro e consegui carregar. Ufa!
E claro que por um tempo eu me senti muito bem: importante, com bastante status social, muito inteligente, forte e impressionante. Para ser sincera, eu me sentia extraordinária. Eu era a melhor naquilo que eu estava fazendo e estava virando referência para algumas pessoas com vinte e poucos anos? Parece brincadeira. Uau!

Até que eu não era mais extraordinária o suficiente. Precisava de mais um pouquinho de tempo e ai sim, eu seria extraordinária de novo. Dai tentei de novo e, quando consegui, na verdade estava faltando mais uma coisinha, mas eu estava quase chegando lá.

Num lapso de exaustão de carregar essa caixa pesadona, eu larguei no chão. Daí, pensa você na bagunça que foi: o tempo foi para um lado, os sonhos foram para o outro, a espiritualidade se escondeu e a energia tirou férias, sem contar todo o resto que foi se esparramando no chão.

Fiquei ali, estática, olhando para a minha caixa extraordinária toda quebrada, toda bagunçada. A caixa que eu construí a minha vida inteira se quebrou em pouquíssimo tempo. Parecia impossível consertá-la, quem dirá recuperar todas as caixinhas - onde eu poderia colocá-las agora que a grandona tinha espatifado? Onde eu poderia arranjar uma caixa maior e mais resistente?

[continua no próximo post...]
fevereiro 08, 2021 No comentários

Muito menos imprudente. De fato, não me recordo com facilidade de um único momento em que eu de fato infringi profundamente regras - ou até mesmo leis. Eu preciso investigar, lá do fundo da memória, para perceber momentos em que eu fiquei muito bêbada ou beijei quem não deveria - e normalmente ao me recordar deles, sinto vergonha e acima de tudo, sinto culpa.
Para mim, sempre foi importante estar certa - em opiniões que são politicamente corretas, em sorrir, em ser uma boa garota. Sempre estar bem vestida, bem-educada. Sempre estar bem. E veja, isso tem sim pontos positivos porque é graças toda essa necessidade de ser correta que comecei a ter consciência de classe, ser empática, não querer magoar ninguém, mas à níveis pessoais esse desequilíbrio em sempre precisar ser sólida e consistente deixa um bocado de confusões.

As limitações impostas - por outros e por mim mesma - atingem um nível de profundidade que parece ser um oceano inteiro, por mais brega que isso soe - viu só, o julgamento nem precisa vir de você pois eu o faço antes. Depois de boas sessões de análise cá estou navegando pelo mar tentando quebrar as barreiras que lá foram colocadas e por mim reforçadas.

Diversos conteúdos sobre autocuidado são compartilhados na internet, mas ainda pouco se fala sobre como é um processo confuso, doloroso e cheio de chateações. É necessário que você perca fé em várias crenças, convicções para começar a ter fé em si mesmo, é preciso abrir mão de boa parte do seu ego, é cheio de deboche e muitas vezes você se sente ridículo e bobo - pois é assim que eu estou ao escrever esse texto.

Passei - e ainda passo - muito tempo pensando em carreira e nos meus objetivos profissionais e em algum lugar ali no meio do caminho eu me convenci de que eu não deveria sonhar. Sonhar pra que se não vai conseguir? - sim, doeu bastante falar isso em voz alta - Não é melhor se poupar de mais uma frustração?

Eu por exemplo sempre quis ir pra França, mas nos últimos tempos que me peguei pensando nisso imediatamente me ocorreu "ora, pois deixe de ser ridícula, nem falar francês você sabe! O Duolingo te cobra toda semana pra você sair do 'la pomme est rouge'!" ou algo como "ai que linda, mas já viu o preço do euro bonitinha? É isso mesmo, não vai rolar".

Ser sempre correta me faz querer fazer um check-list mental antes de me permitir sonhar com alguma coisa. Antes de me visualizar comendo croissant eu coloco um monte de metas para me permitir pensar nele - faz sentido? É um processo muito complexo até mesmo para tentar explicar como funciona.

O ponto é que a grande questão dos sonhos é que eles não precisam ser presos à minha realidade. Nem todo sonho precisa ser uma meta a ser cumprida.

"Você pode se imaginar em Marte e não precisa pensar como você vai respirar lá, ou como vai comer lá".
agosto 04, 2020 No comentários
fotografia feita pela autora do texto, vulgo larissa honorato (eu)

hoje me concentrei em algo novo que outrora fora um velho hábito.
reascendi sentimentos.

logo pela manhã (completamente fora da minha rotina) abri os olhos, a janela e um livro. eu o apoiei no colo.

as folhas não contavam sobre a dura vida de alguma ativista. tampouco retratava a violência policial. também não falava sobre tendências da minha profissão. falava sobre fantasias. falava sobre amor. me senti com treze anos.

no escritório improvisado não segui as duras regras autoimpostas. sabotei todas elas. as de horário, as de produtividade, as de prazos. fui severamente irresponsável com os meus padrões.

interrompi um relatório para ver um filme. este não era baseado em fatos reais, não tinha lutas de classe, gênero ou raça. muito menos guerras entre nações. era um filme bobo. água com açúcar. sessão da tarde.
desses que alimenta o imaginário romântico que carregamos ao longo da vida e cercamos de esperanças aqui e ali.

fiquei ausente das militâncias do twitter, dos posts angustiantes do instagram e das discussões do facebook. esqueci de todas as polêmicas que exercitam diariamente meu senso crítico em relação ao meu meio social. precisei me esquecer de recortes.

tentei me lembrar da última vez que estimulei minha parte artística sem fins lucrativos. de quando consumi conteúdos divertidos sem um objetivo final. não soube me responder.

fui engolida pela realidade e toda vez que olho ao redor sou triturada mais um pouco. o medo é real. o mundo é real. a culpa é real. e a forma como eu vou lidar com tudo também é real.
fazer minha parte também é me desligar, me ausentar, me preservar. não dá pra ajudar ninguém doente. seja do corpo ou da cabeça.
e se algo aprendi nas redes é que tenho muitos ~privilégios~ e tá tudo bem usá-los conscientemente.
abril 22, 2020 No comentários


#UOTech #UOHome #retrohomedecor

Há muito tempo não dedico um tempo às coisas que eu gosto, apesar de sempre reforçar com conhecidos a importância de focar em si mesmo sem segundas intenções - principalmente quando estas estão relacionadas à trabalho.

Uma das minhas coisas favoritas é escrever, não à toa sempre contei por aqui dos cinquenta milhões de blogs que tive ao longo da vida. E dentro desse universo digital, uma coisa que gostava muito de fazer desde a época do Tumblr é criar um registro de como tem sido minha vida de tempos em tempos e nada melhor do que um Taking Stock para fazer isso.

Vou tentar dividir os tópicos de acordo com o que faz sentido para mim nesse momento e espero que não fique confuso.

Trabalhando: muito, mudei para uma agência nova de Relações Públicas e atendo duas contas muito bacanas e que exigem muito do meu tempo e estudos. Estou aprendendo muito como profissional em todos os aspectos.


Lendo: tem sido difícil me concentrar em livros, leio bem menos do que gostaria mas neste momento estou focada em terminar o Livro do Amor, da Regina Navarro. É uma narrativa muito interessante sobre como a concepção que temos de amor foi construída ao longo dos anos dessa maneira possessiva, patriarcal, autoritária e monogâmica. Super recomendo.

Assistindo: Riverdale, Queer Eye e Elite. Claramente evitando coisas fortes depois de ver When They See Us, Coringa e a segunda temporada de Mindhunter.

Instagram

Ouvindo: muitos podcasts (quero fazer um post só sobre isso, quem sabe em breve), playlists de concentração e uma maravilhosa para dormir chamada "Sono Profundo" no Spotify. Recomendo muito utilizar a função de timer e dormir ouvindo.

Amando: ficar perto da minha família e amigos.

Comendo: tudo o que eu vejo pela frente. Principalmente se forem os vegetais que minha mãe faz na janta.

Agradecendo: minha família, meus amigos e a honestidade de todos eles.



Beijos,
Querida Asquini.
outubro 20, 2019 No comentários
preguiça de ver um por um abri meu perfil por 5 min e coloquei privado de novo, mano qtd perfis esquisitos na mrl, é só viajar q do nada uns bgl nd a ve pedem p me seguir sifude tb fazer oq
Pinterest
A maneira como nós interpretamos algumas histórias ao longo do tempo demonstra o quanto nós mudamos e amadurecemos - e como, na maioria das vezes, ninguém acompanha nossos processos.
Foram incontáveis as vezes que eu me sacrifiquei de corpo e alma para atender às necessidades alheias, principalmente amigos e família. Eu me doava de maneira absurda para entender e absorver as dores e as paixões, abdicava das minhas horas de autocuidado para cuidar das horas de alguém.

Com o tempo, obviamente o equilíbrio foi perdido e eu fiquei tão mal quanto aqueles que exigiam e dependiam do meu cuidado. Esses mesmos quase nunca entenderam a minha necessidade de espaço, tempo e privacidade. Eu concedia, mas não estavam dispostos a conceder nada por mim.

Talvez por isso, eu desenvolvi quase uma fobia com a palavra "egoismo" e me aterrorizava alguém me insultar dizendo que eu era egoísta. Depois de algumas sessões de terapia comecei a pensar que para me preservar, precisaria ser egoísta às vezes - e ouso dizer que é uma linha bem tênue.

Entendi que não é sobre fazer o bem esperando algo em troca, mas também não é só fazer o bem e nunca ter nada em troca. É insustentável ficar doente para outros ficarem saudáveis, triste para outros ficarem felizes. Compreendi que relações são trocas mútuas e que ceder faz parte, mas não só de um lado.

Hoje em dia consigo - com uma certa dose de culpa - me posicionar em situações de abuso psicológico. Percebo a grande diferença que existe em dar colo para alguém e se doar tanto até ficar sem nenhuma energia. 

É um abismo entre cuidar e ser explorado - e para toda exploração acabar exige posicionamento e firmeza. Quando fizer isso, perceberá que quem é tóxico te culpa e sempre se coloca como vítima - e que para todo erro que comete existe uma justificativa e que sua autopreservação é errada. Insista, vai por mim, valerá a pena quando você aprender a respeitar seus limites.
abril 22, 2019 No comentários
Não sei dizer quando tudo começou, mas a cada dia que passa tenho mais certeza que isso é tão real que é quase palpável.
Quando eu era muito nova eu assistia meus familiares orando com louvor em missas e todas as noites estávamos sentados na cama dos meus pais agradecendo pelo dia que tivemos, pela saúde, a comida na mesa, a nossa união, nossos amigos e parentes. Pedíamos orientação e luz para aqueles que não estavam bem e também sempre recordamos daqueles que já tinham partido.
Ao longo dos anos comecei a criticar a religião, comecei a ficar cética, a ler escândalos, a discordar da bíblia, a criticar. Eu questionei e todas minhas dúvidas eram silenciadas, censuradas. Ouvi dentro da igreja que Deus não era meu amigo então eu não deveria falar desse ou daquele jeito.
Vi homens traindo suas esposas e as esposas tão tristes que era impossível acreditar que casamento era realmente na alegria e na tristeza.
Desacreditei, odiei a igreja e duvidei de Deus.
Ao longo dos anos, uma energia estranha sempre me guiou, algo sempre esteve ali perto de mim e da minha família e nunca nos abandonou. As coisas ruins sempre se tornaram positivas na minha casa, nós sempre agradecemos e reconhecemos em nossa realidade o sonho de milhares de pessoas. Não era culpa nossa estar ali, mas ainda bem que a gente estava e, silenciosamente, a gente rezava para que um dia aqueles que sonhavam com nossa realidade também pudessem alcançar.
Eu vi contradições, ódio, antipatia, angústia, nojo, aflição em um ambiente que se diz acolhedor e só de amor.
Quando foi que eu deixei de acreditar? Quando deixamos de acreditar?
Ouço músicas de almas perdidas, vejo pessoas com desequilíbrios hormonais, sentimentais e psicológicos atentando contra suas próprias vidas. Vejo homens trocando vidas por dinheiro, deixando morrer os sonhos mais efêmeros.
Vi minhas mulheres mais velhas chorando, mas sempre orando, acreditando em algo melhor. Elas já viram coisas bem piores que eu e ainda enxergam positividade, carinho, amor, afeto, ainda acreditam que Deus está sempre por nós, conosco. Elas não tem uma imagem perfeita de Deus, nem o descrevem por regras, elas só se guiam por algo positivo, se orientam pela força. Elas ainda sentem.
Quando vamos voltar a sentir?

fevereiro 11, 2019 No comentários
Jon Hall - Netflix
Acho que não existe um único adolescente no mundo que não tenha problemas com a própria imagem e a própria sexualidade. Até mesmo aqueles que parecem tão seguros e confiantes em si mesmos costumam esconder questões bastante complexas.
Sex Education é uma produção britânica que estreou recentemente na Netflix e criou um verdadeiro furdúncio na internet. A narrativa se concentra em Otis - um adolescente praticamente invisível no círculo social - que tem uma mãe terapeuta sexual. Mesmo sendo virgem, o garoto aprende tanto com a mãe que passa a reproduzir o trabalho dela dentro da escola junto com Maeve - uma jovem toda rebelde -, dando conselhos sexuais aos colegas do colégio.
Sam Taylor - Netflix

O enredo é completamente leve e divertido, sendo uma dessas séries maravilhosas e confortáveis para te deixar entretido, mas longe de deixar alienado. Tratando sexualidade com a maior naturalidade, a produção aborda homossexualismo, amizade, masculinidade tóxica, feminismo, relacionamentos (amorosos e parentais), aborto e muito mais de uma maneira compreensível, fácil e delicada, sempre trazendo reflexões sobre as temáticas.
Apesar de já não estar mais na adolescência, não pude deixar de pensar o quanto essa série se faz necessária para esse público. Quem me dera ter assistido Sex Education quando eu tinha meus quinze anos! Mais do que isso, quem me dera que toda a temática envolvida fosse abordada com tanta naturalidade entre eu e meus colegas.

Sam Taylor - Netflix

Acredito fielmente que, se nós tivéssemos assistido na adolescência, nos sentiríamos representados por nossas dúvidas não respondidas (e às vezes nem perguntadas) e neuras não expressadas. Não digo que eliminaria os preconceitos - velados ou não -, mas com certeza nos faria refletir sobre assuntos tão importantes e relevantes hoje em dia.
Eu recomendo que todo mundo veja essa série, principalmente adolescentes e pais (não necessariamente assistam juntos), é importante que os pais sempre enxerguem pela perspectiva dos filhos, afinal, todo pai já foi filho um dia.
IT'S MY VAGINA! (se você não pegou a referência, tá na hora de assistir!).
janeiro 31, 2019 No comentários
Acredito que uma das coisas mais interessantes que descobri em moda é que existe uma profissão totalmente dedicada a descobrir quais serão as próximas tendências, baseando-se no comportamento do público e em muita pesquisa. Saiba que isso não existe somente no universo fashion e, como canso de dizer, a maioria das apostas não acontecem somente em moda como também em design, artes visuais, e por aí vai.
Sabendo disso a Shutterstock lançou a sua oitava edição do relatório anual de tendências, colocando em um infográfico interativo tudo o que eles acreditam que vão hitar em 2019 e eu carinhosamente separei as 5 tendências que acredito que vamos cansar de ver esse ano.



A volta dos anos 80: Tanto na moda quanto na música nós já temos visto alguns sinais de que a década de 1980 voltará com tudo que temos direito como estampas animais (falei dessa tendência aqui) e mix de estampas, couro, correntes douradas e também acrescento à essa lista um toque de bandanas e acessórios de cabelo no maior  estilo Guns 'n' Roses.

Cutura Zine

Cultura Zine: Já tem algum tempo que noto e adoto pins com colagens divertidas que misturam ilustração e fotografia, adicionando cores e movimentos e reinventando a arte. Você provavelmente verá algumas influenciadoras editando fotos com alguns detalhes de design, principalmente linhas de contorno e recortes em fotos.


O futuro do passado: Na onda da "volta dos que não foram", o neon será presença marcante em roupas, estampas, acessórios, unhas e eu arrisco dizer que até nos cabelos (a nova onda de cabelos coloridos com certeza será neon). Além disso, a estética já se mostra aos poucos na música como no trabalho mais recente do Muse.


Romântico Rococó: Tido por alguns como um período brega, o Rococó remete à uma época de experimentação, futilidades e vulgaridades na arte após um período conturbado na França. Os tons pastéis e a fuga da realidade virando tendência mundial pode ser facilmente associado ao momento político mundial. Moda e política estão ligadas.
 

Sustentabilidade: Eu orei por esse dia chegar e o momento é realmente agora. Repensando hábitos de consumo e cada vez mais influenciadores e reality shows venderem a ideia do minimalismo, um movimento puxa o outro e com isso temos o aumento de pesquisas sobre vegetarianismo, veganismo, trabalho escravo, excesso de lixo, abolição de canudos, redução da produção de plástico e por aí vai.

Para conferir todas as apostas da Shutterstock acesse aqui.
janeiro 22, 2019 No comentários

Tinha uma época que eu vivia com coração partido e o amor (romântico) não era um grande amigo meu. Foi justamente nessa mesma época que eu comecei a prestar mais atenção em letras de música e em como elas eram compostas - harmonias e alguns detalhes não óbvios.
Quando resolvi ler essa biografia, sabia que se tratava de um dos maiores nomes do rock mundial, líder de uma das bandas mais importantes do mundo, um andrógino tão viciado em sexo quanto em drogas.


Intitulado "O Barulho na Minha Cabeça Te Incomoda?", o livro não poderia ser mais auto-explicativo, uma vez que a narrativa não segue nenhuma ordem de cronologia e, por muitas vezes, as histórias se atropelam e fica confuso acompanhar a linha de raciocínio hiperativa do cantor.

Uma das partes mais curiosas para qualquer fã de música é saber um pouco mais do contexto em que as canções foram compostas: os recursos disponíveis, as inspirações para letras, as referências para a melodia, etc. Acredito que essa foi a minha parte favorita, muito além saber com quantas mulheres Steven Tyler já transou ou o quanto de droga ele já consumiu (ambos impossíveis de saber), é interessante saber como o Aerosmith realmente nasceu, como se mantiveram e se mantém por tantos anos.


É curioso saber como uma lenda viva do rock se comporta atualmente e, minha nossa, como é difícil conseguir contextualizar as histórias e pensamentos. Falo isso porque, por ser tão interessada por movimentos sociais, em vários momentos Tyler reproduz discursos machistas - do tipo "claro que eu posso trair minha mulher porque sou homem e viciado em sexo, mas ela nunca pode me trair", entre outros fatores e por muitos momentos tive que me lembrar que o homem já tem setenta anos - e veja bem, não estou afagando o ego ou "passando pano", mas esse é uma linha que sempre tento seguir, afinal, tenho cinquenta anos de diferença histórica e social de uma figura como Steven.

Além de todas as polêmicas narradas com uma quantidade generosa de detalhes, Tyler se expõe verdadeiramente no livro recheado de palavrões, contando suas frustrações matrimoniais, a distância de convivência com seus filhos, o constante problema com abuso de todas as substâncias possíveis, as dores crônicas que sofre em várias partes do corpo, as experiências na estrada, entre muitas outras coisas.


O livro me deixou completamente viciada em Aerosmith e ainda mais interessada na moda dos anos 1970. É muito engraçado como agora escuto as músicas lembrando dos processos criativos envolvidos e, ao final da leitura, pude constatar o quanto a indústria glorifica os abusos - de todos os tipos - o sofrimento, a depressão, a solidão, os excessos: para ser um grande músico você tem que ser fodido da cabeça?

O barulho na cabeça de Steven justifica o apelido de demônio dos gritos, o fato de "o cara parecer com uma mulher", o buraco constante no coração e a incessante esperança de continuar sonhando.
janeiro 15, 2019 No comentários
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Olá, sou a Lari e tenho 27 anos - e há mais de quinze anos escrevo algumas coisinhas para internet. Sou formada em Relações Públicas e trabalho com marketing de influência. Adoro consumir cultura e divulgar dicas por aí.

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