Eu sei que...

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Foto: Querida Asquini

Quando eu tinha dois anos eu podia usar biquíni sem a parte de cima e chupar sorvete deixando-o derreter e escorrer pelas bochechas e pescoço. Aos quatro eu podia brincar de escorregador nas pernas do meu pai e dos meus tios e usar saias sem nenhuma vergonha de mostrar os desenhos da minha calcinha. Aos sete eu tinha que trancar a porta do banheiro quando tomava banho, não sair só de toalha por aí e a parte de cima do biquíni já era para as mocinhas. Aos nove eu não podia brincar de escorregador nas pernas do meu pai nem dos meus tios e também não podia chupar sorvete me melecando porque me olhariam estranho. Aos doze eu tinha que usar short por baixo da saia ou ficar o tempo inteiro com pernas fechadas e devia sentir vergonha quando não estivesse com sutiã para cobrir os carocinhos que brotavam nos seios. Aos quatorze eu não podia abaixar levantando o bumbum: sempre abaixe o tronco junto com as pernas, não empine a bunda porque vai chamar atenção; não podia brincar de lutinha com os meninos porque eles entenderiam de outra forma; não podia abraçar meninos porque eles veriam de outra forma e aprendi que não podia muitas coisas com meninos porque eles sempre interpretariam de outra forma.
Aos dezesseis entendi que de forma alguma eu posso trocar de camiseta na frente de algum menino, que não posso beber sozinha, que não posso sair sozinha; que minha roupa chama atenção de qualquer forma, até quando estou de moletom; que chupar sorvete, pirulito ou até bala não tem o mesmo sentido de quando eu tinha dois anos; que meu cabelo sempre tem que estar liso e minhas pernas depiladas e que se eu não tivesse beijado ainda, nunca arranjaria um namorado.
Aos dezoito eu sei que não importa o quanto eu entenda de um assunto, algum homem sempre vai fazer mansplaning e eu vou me sentir burra e frustrada a ponto de querer ficar calada e chorar, que por mais que eu seja inteligente e minhas pernas sejam fortes eu nunca terei força o suficiente para derrubar um homem; sei também que minhas saias curtas e grudadas são chamativas e que muitos homens "não vão conseguir se controlar" e comentarão alguma coisa - ou farão alguma coisa - que vai me fazer ter arrependido de colocá-las; sei também que não são só as saias, mas os jeans, os moletons e shorts que causam isso; sei que quando sou assediada no Metro e denuncio na estação, o moço vai me perguntar se eu "realmente não dei margem"; sei que eu nunca posso sair sem sutiã porque meus seios são motivo de vergonha. Sei que se eu passar muito perfume e for para a rua, algum homem chegará perto o suficiente para me chamar de cheirosa. Sei que não posso andar sozinha por muito tempo e que sempre tem que ter alguém a minha espera - e esse alguém precisa ser do sexo masculino.
Sei que ouço muitas histórias das minhas amigas e as abraço e choro porque sei exatamente qual é a dor e frustração delas; sei que toda vez que aperto a mão da minha mãe com medo na rua ela vai retribuir fincando as unhas nas costas da minha porque o pavor corre amargo pelo sangue. Sei que várias vezes preciso pedir para o meu pai me encurralar nas paredes de casa com força e me ensinar como fugir, assim como tenho que pedir para meu namorado me ensinar como lutar fisicamente.
Sei que falo demais sobre problemas femininos, que estrago muitas reuniões, que xingo muito, que falo muito palavrão, que condeno, que grito e que choro.
Sei que vou bufar, sentir medo, vou gritar, vou chorar e espernear, vou tremer o corpo inteiro, vou sentir raiva, ódio, medo, pavor, terror. Sei que vou repetir a mesma história mil vezes mudando as protagonistas; sei que vou me surpreender - mas nem tanto - sempre que ficar intima de uma mulher e descobrir que ela foi abusada. Sei que num grupo com dez mulheres, pelo menos cinco delas já foram abusadas de alguma forma e que talvez, algumas delas nunca falarão sobre isso. Sei que vou reproduzir o mesmo discurso um milhão de vezes para diversos homens - muitas vezes terei que repetir para os mesmos homens - até que eu me assegure que eles me ouviram e entenderam pelo menos 40%. Sei que vou me decepcionar com homens próximos a mim e que vou ter que policiá-los - assim como me policio - para não reproduzirem o discurso machista que estão acostumados.
Sei disso tudo e sei que cansa todo dia porque é como matar cem caças por dia, me sentir poderosa e forte e ter que entregar minhas cem caças para um leão.
Sei que choro escrevendo isso e que muitas chorarão lendo isso e outras notícias.
Sei que sempre somos culpadas.
E sei que, enquanto estou aqui escrevendo, tremendo e chorando pelo susto, estão rindo de um menino de quatro anos que bateu na bunda da mãe porque não concordou com o que ela disse.

Com frustração - e amor às manas,
Querida Asquini.

P.S..: aqui tem um texto muito bom e aqui um desabafo sobre o envolvendo um famoso em particular.

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Sobre

Larissa Honorato
Apaixonada por música, moda, fotografia e comportamentos sociais. Procuro instigar o questionamento e a curiosidade das pessoas para que sempre se descubram e reconstruam.